segunda-feira, 26 de outubro de 2015

12. A EMERGÊNCIA

Na época, as filas dos transplantes eram por instituição, não era uma fila única como acontece hoje. Para que eu tivesse uma chance de ser salva com um re-transplante, eu fiquei em estado de emergência em todo o Estado de São Paulo. Todos os hospitais foram comunicados e todos os fígados que aparecessem para doação precisavam primeiro ser analisados se eram compatíveis com o meu tipo sanguíneo, antes de atenderem às suas respectivas filas. Pessoas de diversas religiões estavam em oração para que eu aguentasse a espera de outro órgão, meu nome era anunciado nas rádios e grupos se revezavam para orar por mim de hora em hora ininterruptamente. Meu tio Edvaldo (tio Vade como o chamo), conseguiu através de seus conhecidos fazer até um anúncio na tv pedindo doadores para mim. Programas entravam em contato com meu médico pedindo informações e deixando-o louco, pois ele na verdade, não tinha como fazer nada até que um novo órgão aparecesse.

Hoje entendo que eles não acreditavam que eu conseguiria! Depois de alguns dias dessa espera, na UTI a visita foi liberada, eu recebia muitas cartinhas e cartões fofos que me transmitiam palavras de fé, consolo e força. A todo o momento eu via rostinhos conhecidos no vidro da porta, familiares e amigos mandando beijos, fazendo mímicas e mostrando faixas com desenhos de coração. As enfermeiras empurravam minha cama para perto da janela para que eu visse uma turma lá embaixo no estacionamento acenando e pulando.
O médico disse aos meus pais que era muito importante a minha vontade de viver, que eu não desistisse e isso estava mesmo acontecendo de minha parte, pois, como já lhes disse, em nenhum momento eu achei que não resistiria.

Minha mãe me contou que minha madrinha de batismo Neusa, pediu para eu visualizar Nossa Senhora. Ela sempre foi muito católica e devota de Nossa Senhora e disse para eu ter fé que Maria nunca negava ajuda a um filho necessitado. E assim eu o fiz!
Imaginava o tempo todo Maria a me acompanhar, na parede branca em frente a minha cama eu a via... Ela estava lá, olhando para mim, com as palmas das mãos viradas para cima e das suas mãozinhas de Mãe saiam raios de luz que vinham em minha direção, raios de benção, de paz, de força como na imagem de Nossa Senhora das Graças. Maria, ela que viu seu Filho ser injustamente julgado, açoitado, que teve seu coração transpassado por uma lança de dor, naqueles dias contemplava as minhas dores e o meu sofrimento.
Longe de mim, querer me comparar ao sofrimento do Cristo! Eu não sofri nada! Digo apenas que era assim que eu a imaginava, a me olhar com compaixão, intercedendo por mim junto a tantos que oravam ao Pai.

Eu tinha também o acompanhamento de uma profissional da Psicologia, ela se chama Rosana. Eu amava os atendimentos dela, a paciência e a maneira com que ela me fazia sonhar e imaginar como minha vida seria quando voltasse para casa.
Havia dias que eu acordava triste, não tinha vontade de rezar. Para mim era muito complicado rezar e pedir a Deus que me desse outro fígado. O transplante que eu precisava só poderia ser de alguém que tivesse morte encefálica. Não poderia ser um pedaço, como os transplantes de bebês... Ou seja, eu precisava pedir a Deus que uma mãe chorasse para que a minha pudesse sorrir! Era como se eu orasse para alguém morrer... Eu não conseguia fazer isso...

Naqueles dias a UTI foi minha casa. Em isolamento eu estava à espera de um milagre como aquele filme famoso (que amo) com Tom Hanks. Na época eu cursava o 2º ano do colégio técnico em Processamento de Dados, meu pai passava na casa da Adriana, uma colega de classe e pegava a matéria para eu estudar, 2 ou 3x por semana. Eu copiava a matéria, assistia tv, desenhava e ouvia muita música. Fazia tudo que eu podia para ver a hora passar... As manhãs eram mais agitadas, sempre tinha visita das fisioterapeutas e o exercício respiratório da Máscara de Cpap que todo mundo detestava e eu amava! Elas também faziam uma massagem nas costas com tapotamento que eu amava muito... Era muito relaxante!
Lembro-me muito bem uma vez que elas vieram em duas e disseram: “Vamos levantar dessa cama?” E, com todo cuidado me sentaram, e lentamente me ajudaram a ficar em pé e bem devagar esticar a coluna que a barriga enorme não permitia. Caminhamos pelo quarto por alguns minutinhos e eu, bem maluca, talvez pela alegria de estar progredindo, me segurei na cama e na mão de uma delas e pedi: “Posso fazer uma coisa, por favor, por favor? Eu quero muito!” E eu dei uma sambadinha! Hahaha... Foi tão legal poder dançar, mesmo que por 2 segundos. Era a coisa que eu mais amava fazer! :D #doida
Depois do almoço a hora se arrastava. Era muito angustiante aguardar até 15hs para ver meus pais e meu amor por apenas 15 minutos. Contudo, nesta fase que eu estava desenganada pelos médicos, eles ainda conseguiam ficar mais tempo comigo a noite.
Eu amava encontrar com o Rogerinho nas visitas: Ele me olhava com ternura e me falava do amor que nem eu entendia como ele sentia. Eu estava horrível, inchada, descabelada, sem nenhum cuidado de beleza... Sexy demais: usava fraldas e um sutiã feito com máscaras descartáveis #misericordia! Hahaha Era simplesmente eu, como daquele jeito que a gente acorda, sabe? E ele me amou e ficou comigo em cada dia. Nós tínhamos menos de 1 mês e meio de namoro quando tive que operar e ele estava lá firme, acompanhando minha mãe, ajudando ela dirigir à SP pois ela não tinha prática e me dedicando todo o carinho do mundo, me fazendo rir e sendo parceiro a cada dia. Ele é mesmo muito especial!
Com minha mãe, D. Marlene, as horas de visita eram exclusivas à oração, nós cantávamos hinos a Deus, ela lia a Bíblia para mim e me contava as notícias do mundo após os muros do hospital. Além de toda a preocupação com minha saúde, nós pagávamos aluguel na época e a CEF havia liberado uma Carta de Crédito para nós, então eles tinham prazo máximo de 90 dias para encontrar uma casa. Era uma correria! 
Minha mãe é aquela pessoa que chamo de rocha! Forte e dura por tantas dores que passou na vida. Um coração do tamanho do mundo, amiga fiel, amorosa, dedicada, carinhosa, batalhadora, independente! Alguém a quem admiro e a quem sempre disse "quando eu crescer, quero ser assim". Super vaidosa, sempre no salto, maquiada, linda! O sorriso mais gostoso, o melhor beijo, o melhor colo. Mamãe, minha rainha!
Ela estava sofrendo muito e teve seus momentos de desespero. Soube que ela até gritou de tanta dor e pânico em me perder. Mas, não demonstrava para mim. Comigo, sempre havia um sorriso em seu rosto! 
Meu pai, Sr. Francisco, trabalhava no litoral paulista, em Cubatão e só conseguia me visitar no horário da noite. Sempre calmo e quieto, me transmitia muita paz e tranqüilidade. Eu não via nos olhos dele nenhum desespero, nenhum medo, nenhuma dor, somente cansaço! Ele trazia sempre uma mensagem de fé, paz, calma. Uma força que vem de Deus, certamente! E ainda hoje é assim, ele é meu porto seguro, o melhor abraço, a melhor conversa. Aquele que me escuta e aconselha e que eu posso sempre contar. Firme, correto, honesto e trabalhador... meu pai, meu amor!!!

Um hino da igreja que ainda hoje quando escuto, lembro destes momentos diz assim:

“Porque Ele vive, eu posso crer no amanhã
Porque Ele vive, temor não há, não há, não há
Mas, eu bem sei que o meu futuro
Está nas mãos do meu Jesus que vivo está!”

Ou aquele...

"Podes reinar, Senhor Jesus, oh sim!
Teu poder teu povo sentirá 
que bom Senhor saber que estas aqui
reina Senhor neste lugar"

Nós já freqüentávamos a RCC (Renovação Carismática Católica) antes de eu fazer o transplante. Era em São Caetano do Sul a igreja que participávamos, São Francisco de Assis, o pároco era o Pe. Vanderlei Nunes, um homem ungido de Deus, abençoado e que nos enchia de fé. No ministério de música da igreja, uma das cantoras se chama Fábia, uma pessoa linda, com uma voz doce e é na voz dela que “escuto em minha mente” estes hinos que marcaram tanto minha vida e me acompanhou em todos os momentos que aprendi louvar a Deus na dificuldade.
Houve um dia de extrema importância que certamente foi primordial para a minha história e por hoje eu estar aqui a redigir estas linhas para que possam ler. Lembro-me bem, pois foi uma experiência muito forte, única:
Era domingo, minha mãe veio me visitar com o folheto ABC Litúrgico da missa e, como sempre fazia me perguntou: “Dani, a ministra da eucaristia veio lhe trazer a comunhão”, e eu: “Sim, mamãe. Veio hoje cedo” E então, ela disse: “Trouxe o folheto da missa, você quer ler agora?” ... “Ah, mãe, lê pra mim?”
Era esta passagem:

Gênesis 22:1-14


1Passado algum tempo, Deus pôs Abraão à prova, dizendo-lhe: "Abraão!"
Ele respondeu: "Eis-me aqui".
2Então disse Deus: "Tome seu filho, seu único filho, Isaque, a quem você ama, e vá para a região de Moriá. Sacrifique-o ali como holocausto num dos montes que lhe indicarei".
3Na manhã seguinte, Abraão levantou-se e preparou o seu jumento. Levou consigo dois de seus servos e Isaque, seu filho. Depois de cortar lenha para o holocausto, partiu em direção ao lugar que Deus lhe havia indicado.
4No terceiro dia de viagem, Abraão olhou e viu o lugar ao longe.
5Dis­se ele a seus servos: "Fiquem aqui com o jumento enquanto eu e o rapaz vamos até lá. Depois de adorar, voltare­mos".
6Abraão pegou a lenha para o holocausto e a colocou nos ombros de seu filho Isaque, e ele mesmo levou as brasas para o fogo, e a faca. E, caminhando os dois juntos,
7Isaque disse a seu pai, Abraão: "Meu pai!"
"Sim, meu filho", respondeu Abraão.
Isaque perguntou: "As brasas e a lenha estão aqui, mas onde está o cordeiro para o holo­causto?"
8Respondeu Abraão: "Deus mesmo há de prover o cordeiro para o holocausto, meu filho". E os dois continuaram a caminhar juntos.
9Quando chegaram ao lugar que Deus lhe havia indicado, Abraão construiu um altar e so­bre ele arrumou a lenha. Amarrou seu filho Isa­que e o colocou sobre o altar, em cima da lenha.
10Então estendeu a mão e pegou a faca para sacrificar seu filho.
11Mas o Anjo do Senhor o chamou do céu: "Abraão! Abraão!"
"Eis-me aqui", respondeu ele.
12"Não toque no rapaz", disse o Anjo. "Não lhe faça nada. Agora sei que você teme a Deus, porque não me negou seu filho, o seu único filho."
13Abraão ergueu os olhos e viu um carnei­ro preso pelos chifres num arbusto. Foi lá pegá-lo, e o sacrificou como holocausto em lugar de seu filho.
14Abraão deu àquele lugar o nome de "O ­Senhor Proverá". Por isso até hoje se diz: "No monte do Senhor se proverá".

Minha mãe, ao ler estas palavras se emocionou e, mesmo a contragosto, corriam-lhe lágrimas pela face. Hoje entendo eu que movida pelo Espírito Santo, no calor daquela prece, e por uma fé que nem eu mesma sabia ter eu gritava a ela: “É isso, mãe! É isso! Como não percebemos antes?! É isso!”
Minha mãezinha confusa e sem querer acreditar no que eu dizia: “O que foi Dani, o que você está falando?”
“Estou dizendo mãe que é isto que a senhora tem que fazer... Se a senhora me entregar para o Senhor, Ele proverá o cordeiro! Ele vai preparar um fígado novo para mim!”
“Mas, Dani, eu não sou Abraão! Eu não tenho a fé de Abraão!”
“Mas, mãe, você vai ter que ter! Se quer que eu me salve...”
Ficamos ali por um longo tempo orando que o Senhor a capacitasse para aquilo e que ela conseguisse fazer aquela oração de maneira sincera, que as palavras viessem mesmo do coração e que ela abrisse mão de mim, se assim fosse a vontade do Pai.
“Depois de muito orarmos, ela conseguiu!”, disse:
“Senhor, a Dani não é minha, ela é sua, Senhor. Deste-me ela emprestada para que eu a cuidasse aqui na terra. Mas, ela é sua! Se for da Tua vontade que ela volte para Ti, peço que fortaleça a minha fé e me ajude a suportar. Que seja feita a Tua vontade, eu Te entrego a minha Dani”.

Foram tantas lágrimas, incontáveis! Mas, uma certeza fortalecida que a Misericórdia Divina iria se manifestar.


Eram dias em que falar em transplante estava na moda, era assunto dos principais telejornais. O governo estava determinando que as pessoas colocassem no RG se aceitavam ou não serem doadores de órgãos. O assunto polêmico era notícia quase todos os dias. Por isso, perdi alguns órgãos, pois as famílias não concordavam em doar. Além disso, precisava que fosse compatível o tipo sanguíneo, que não houvesse indícios de uma série de doenças e que o óbito do doador fosse morte cerebral. Então, naquela noite estava eu assistindo ao Jornal na Rede Globo e passou a notícia: “Um rapaz de 22 anos havia sido vítima de assalto em um farol, fora baleado na cabeça. Um moço novo, bonito, moreno, usava bigodinho... A notícia dizia que sua família iria doar todos os órgãos possíveis, inclusive as córneas. Em minha mente eu rezei: “Deus, bem que o fígado dele poderia vir para mim!” -.-

2 comentários:

  1. É minha amiga, pode ter certeza que neste momento como em outros aqui do seu blog, as lágrimas rolaram, mas agora foi mais forte!!!! Linda, Jesus te ama e eu também.

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    1. Deus é tremendo!!! Sempre está atento a ouvir o nosso clamor. A Ele toda a honra e glória para sempre!

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