segunda-feira, 26 de outubro de 2015

13. O RE-TRANSPLANTE

Acabei adormecendo e na hora da visita contei pra minha mãe que tinha sonhado com um anjo. Ele me avisava pra aguentar firme que meu fígado novo estava chegando.
À noite lembro-me que tinha uma enfermeira comigo, ela era senhora, usava saias, óculos e seus cabelinhos grisalhos estavam presos em um coque. Lembro de estar sonolenta, cochilando e ela me falava coisas sobre Deus. Não consigo me recordar seu nome, mas também não sei se ela é real ou uma “vozinha anja” enviada de Deus, até porque ninguém na UTI soube me dizer de uma enfermeira com essas características... 

Naquela noite do dia 04/05/1997 eu havia acabado de começar a jantar, um purezinho delicioso, quando entra no quarto o Dr. Fábio, o médico mais chato que vinha para passar visita e fazer em mim aquele exame que deitava todo o leito e eu detestava! E ele diz: “Pára de comer, pára de comer agora!” Fiquei brava! :@
Ele tirou a comida e fez o exame que eu detestava, para medir a pressão venosa central.
Fiquei resmungando e ele foi embora correndo. Então a enfermeira me disse: “Você vai operar esta madrugada, estão trazendo seu fígado!” A ansiedade era tanta que eu não conseguia adormecer. Só apaguei quando me deram um calmante.
Enquanto isso, minha mãe estava em casa, se arrumando para ir à visita das 21hs. Ligaram para ela e falaram para ela aguardar na linha, que meu médico Dr. Maurício iria falar. Ela achou que eu havia falecido e quase teve um colapso nervoso! Mas a notícia era outra...

Foram mais 9 horas de cirurgia. Acordei quando estavam me costurando, eu não sentia dor, mas aquela sensação horrível nunca saiu da minha mente. Eu tentava, tentava me mexer para mostrar a eles que eu tinha acordado, mas não tinha forças.
O pós-operatório foi muito pior que o da primeira vez. Meu corpo todo doía muito! Parecia que eu havia sido atropelada por um caminhão!
Lembro apenas que minha mãe vinha me visitar e eu só conseguia ficar alguns poucos segundos com os olhos abertos e dormia... Dormia... Não tinha forças nem pra ficar acordada.
Os dias foram passando e eu fui me recuperando bem devagarzinho.
Recebi alta da UTI e fui para o quarto, já com a orientação de tomar 3 litros de água por dia. Foi difícil me acostumar, mas, hoje não consigo ficar sem! Na ocasião eu já havia tirado os pontos da barriga, axilas e virilhas e também um dos drenos do abdômen. Os pontos das virilhas e axilas foram necessários, pois um aparelho era inserido nas axilas, direcionando o fluxo sanguíneo direto para as virilhas, diminuindo assim a perda de sangue durante a cirurgia, devido ao tempo cirúrgico ser muito extenso. Estava apenas com um dos drenos, o do lado direito. Um dia aconteceu algo bem estranho, eu acordava bem cedo, todos os dias, mas naquele dia senti um sono tão forte, estranho antes do almoço e dormi. A enfermeira Cida, uma querida, me acordou pra eu almoçar. Depois do almoço, começou a jorrar um líquido amarelinho do lado esquerdo, pelo orifício onde tinha o dreno e estava em fase de cicatrização. Tomei um susto... tive muito medo de ter que voltar a UTI.

Tinha orientação de andar muito para eliminar líquido e gases. Meu abdômen estava super distendido, parecia que eu estava grávida de uns 4 ou 5 meses. Andar causava forte incômodo tanto na barriga quanto na coluna porque devido a ficar tanto tempo deitada, eu não conseguia ficar ereta, em pé, andava meio corcunda.

Durante este período de internação no quarto, a rotina era a seguinte, minha mãe trabalhava normalmente, exausta com certeza porque ela passava todas as noites comigo, dormindo naquele sofazinho desconfortável no hospital. Além do meu namorado Rogério, que mentiu no hospital dizendo ser meu irmão para poder ficar como acompanhante, apenas uma (isso mesmo “1”) pessoa da minha família se ofereceu para passar uma noite comigo, para que minha mãe pudesse descansar em casa.  Hoje, repensando tudo isso que aconteceu, e sendo eu casada imagino, como minha mãe conseguiu se desdobrar e dar conta de tudo?! Digo, porque ninguém a ajudava em casa, ela tinha de cuidar da higiene do lar, lavar roupas, passá-las, dormir comigo no hospital e ir de lá direto para o trabalho! E ela o fez, com todo o mérito possível! Minha rainha! Minha super heroína! Mamãe Nada que eu diga ou faça será capaz de demonstrar tanta gratidão a Senhora. Meu pai trabalhava em Cubatão, como já disse. Ele precisava se deitar cedo porque levantava às 3hs da manhã e, como era motorista, não poderia dirigir com sono, pois isso seria perigoso para sua vida e a de todos os passageiros que transportava diariamente. Ele ficava em Cubatão o dia todo e só voltava de lá ao final do dia, trazendo os funcionários para o ABC novamente.
Como eu dizia, minha prima Cilmara (my little sister, como nos chamamos), foi a única da minha família que chegou para minha mãe e disse “tia, vai descansar, eu durmo com a Dani hoje!” E ela também trabalhava fora e foi direto para o trabalho depois de uma noite mal dormida no sofá do hospital! E não é que minha família seja pequena não! Eu tenho vários tios, tias e primos, sem contar com os “amigos”, mas ninguém estava disponível. Esta minha prima, é uma verdadeira irmã. Alguém a quem amo, admiro e sei que posso contar em qualquer situação. Alguém a quem eu torço e oro todos os dias da minha vida. Também não guardo nenhum tipo de mágoa dos que não puderam ajudar, cada um tem seus compromissos, eu sei. Mas, é fato que aconteceu e eu não poderia mentir aqui, não é mesmo? Esta questão é muito delicada porque levanta um questionamento muito sério. Eu entendo temos nossa rotina da semana e o lazer do final de semana tão esperado, mas é muito importante levar um sorriso, uma esperança a um amigo ou familiar que se encontra doente ou hospitalizado. Doar nosso tempo é o que há de mais precioso no mundo e pode ser um fator decisivo na saúde de alguém. A pessoa pode estar, por exemplo, entrando num quadro de depressão e seu sorriso, sua visita, pode salvá-la! Já pensou como isso é tremendo?

Enfim, recebi alta hospitalar com prescrição para 14 tipos de medicamentos, orientação para não ter nenhum contato com poeira, usar máscara em locais públicos, tomar 3 litros de água fervida por dia, ter uma ótima alimentação, etc e etc. Foram 21 dias de UTI e ao todo, 33 dias hospitalizada, mas saí viva para honra e glória de Jesus, meu Senhor!

Deixo meus sinceros agradecimentos àqueles que oraram por minha sobrevivência, saúde e recuperação e, em especial pelos que se fizeram presentes fisicamente. Aos que ajudaram financeiramente meus pais, aos que doaram medicamentos, especialmente aos amigos do ECC (Encontro de Casais com Cristo – Igreja Católica Apostólica Romana do Setor de São Caetano do Sul) que ajudaram meus pais inclusive com mantimentos e dinheiro.
Em especial quero citar uma amiga. Ela se chama Raquel, ela era evangélica não sei de qual igreja, um ser humano lindo, iluminada por Deus e cheia do Espírito Santo! Ela esteve ao lado da minha mãe e diariamente quando chegava do trabalho, ia a minha casa e falava pra minha mãe: Tia, vamos orar pela Dani? Elas se ajoelhavam e clamavam a Deus por minha recuperação. Minha mãe conta que ela descia do ônibus e ia direto pra lá, antes mesmo de ir a sua casa, ela priorizava pedir a Deus por mim, isto não é lindo? Eu só posso agradecer a Deus por ser humano tão belo que ela é e pedir a Deus que a cubra de bênçãos e graça por onde quer que ande, juntamente com sua família.
Dr. Maurício Iasi, meu médico cirurgião, meu Pai2

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