Estar
em uma UTI
mostra-nos como somos pequenos. É uma situação de total necessidade da ajuda e
solidariedade do outro: os ossos se enrijecem e você não pode andar ou sentar,
você não tem privacidade para fazer na-da sozinha e na maior parte das vezes
tem de usar fraldas e, para fazer a coisa mais simples do mundo como beber água,
por exemplo, você precisa pedir permissão ou auxílio para executar.
Eles
monitoram seus batimentos cardíacos, sua temperatura, pulsação, saturação,
diurese e cada gotinha de medicação que é injetada em seu sangue são
minuciosamente calculadas! Estar na UTI é estar viva pela misericórdia divina,
abandonada à iniciativa do outro, é estar e contar com o carinho de quem vive a
profissão por vocação mesmo. Até porque é totalmente compreensivo se os
profissionais da saúde forem se tornando frios com o passar dos tempos, pois
convivem com a morte e sofrimento diariamente. Mas, é impressionante como há
pessoas que vêem no outro a face de Cristo e fazem com extremo amor aquilo que
enoja a qualquer um.
Eu
tive o privilégio de ser cuidada por pessoas assim, graças a Deus. A enfermeira
Edna, responsável pela captação dos órgãos de doadores, é um ótimo exemplo
disso, lembro-me com clareza dos momentos que ela vinha aos pés da minha cama,
retirava as faixas das minhas pernas e massageava-as e aos meus pés por um
longo tempo, conversava comigo, fazia-me sonhar, sorrir, um carinho que
certamente ela dedicava aos filhos que eu nem sei se ela tinha ou tem hoje.
Quando eu não tinha mais veias disponíveis para serem furadas e meus braços
estavam roxo escuro, como a casca da berinjela, ela vinha com doçura e
massageava. Um doce de pessoa!
Havia
também um técnico de enfermagem do horário noturno, lembro-me que se chamava
André, cuidava de mim também como um irmão, fazia-me rir e antes de eu dormir
me dava outro banho de leito (era fevereiro e fazia muito calor). Depois do
banho ele massageava minhas costas com um creme especial para as dores fortes
que eu tinha na coluna e então sim, eu conseguia ter uma boa noite de sono.
Sobre
o sono, já deu pra perceber que era bem complicado dormir na UTI, agora, quanto
a alimentação, o que eu mais comia quando saí do soro era purê de batatas ou
mandioquinha (humm) e gelatina. Um dia lembro que eu estava louca de vontade
por uma salada de alface crespa e um suco de laranja natural... Nossa! Chegava
a dar água na boca!
As
5hs da manhã a grande movimentação de sempre recomeçava, luzes se acendiam em
meu rosto e eles vinham medir a pressão venosa central (PVC) várias vezes ao
dia, era um procedimento feito pelo médico e eu odiava. Meu abdômen estava bem
inchado e havia nele e em meu tórax mais de 100 pontos. Meu leito ficava sempre
com a cabeceira erguida e, para que este exame fosse realizado era necessário
deitá-lo totalmente o que fazia com que meu abdômen e coluna se esticassem todo,
causando dores e incômodo muito grande, inclusive falta de ar. Mas, era um
procedimento necessário para medir a pressão do sangue venoso bombeado pelo
coração e, portanto, feito regularmente.
Toda
manhã também eu fazia exames de sangue para que eles conseguissem avaliar meu
estado clínico geral, posso dizer que este sim era um dos maiores sofrimentos
que tive na UTI, as constantes “picadinhas”. Bom, quando você vai ao
laboratório uma vez ou duas ao ano realmente é só uma “picadinha”, mas colhendo
sangue todos os dias e tomando medicações fortíssimas, antibióticos,
analgésicos e drogas para não rejeitar o órgão recém colocado, as veias vão se
tornando cada vez mais finas e frágeis como de um bebê e realmente um simples
exame de sangue vai se tornando uma real tortura.
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